Carroça Vazia
Certa manhã, meu pai, muito sábio, convidou-me a dar um passeio no bosque e eu aceitei com prazer. Ele se deteve numa clareira e depois de um pequeno silêncio me perguntou: - Além do cantar dos pássaros você está ouvindo mais alguma coisa?
Apurei os ouvidos alguns segundos e respondi:
- Estou ouvindo um barulho de carroça.
- Isso mesmo, disse meu pai, e é uma carroça vazia.
Perguntei, então: - Como pode saber que a carroça está vazia se ainda não a vimos?
- Ora, respondeu ele, é muito fácil saber que uma carroça está vazia por causa do barulho. Quanto mais vazia a carroça, maior o barulho que faz.
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Tornei-me adulto e, até hoje, quando vejo uma pessoa falando demais, gritando (no sentido de intimidar o outro), tratando o outro com grossura inoportuna; alguém prepotente, interrompendo a conversa de todos, querendo demonstrar que é a dona da razão e da verdade absoluta, tenho a impressão de ouvir a voz de meu pai dizendo:
- “Quanto mais vazia a carroça, mais barulho ela faz”...
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Esta pequena estória me fez lembrar aquela pergunta que não quer calar: por que o ser humano fala tanto, sem necessidade? Por que não escuta mais a si mesmo? Fala de tudo, por tudo, sobre tudo, muitas vezes sem a menor necessidade, talvez por necessidade de se ouvir e de ser ouvido.
No fundo, se observarmos bem, a cada dia o ser humano sente mais a real necessidade de equilibrar sua tendência para o movimento com alguma quietude; sente a urgência de contrabalançar seu excessivo FAZER com um mais profundo SER .
É bem verdade que o ser só se constitui através da ação, do fazer. Inércia nunca levou ninguém a lugar nenhum; nunca causou progresso e evolução. Inércia é muito diferente de estar atento, de estar desperto.
No entanto, a vida de ação requer também a pausa. Como sabiamente disse John Ruskin, embora não haja música na pausa, esta entra na composição da música. E o ser humano, todo o tempo, foge da pausa, do parar, do silêncio.
Afinal, cada um representa a única pessoa que jamais abandonará a si mesmo. Cada um estará sempre dentro de si. Então, por que tanto medo de ficar sozinho, em silêncio?
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A pausa é importante em todos os aspectos da nossa vida: físico, mental, emocional e espiritual. No aspecto físico, ela permite que o corpo descanse e se refaça das atividades do dia-a-dia. No aspecto mental e emocional, depois de exercitarmos a mente e vivenciarmos emoções desencontradas, a pausa |
possibilita um profundo descanso no ser, quando os pensamentos se aquietam e as emoções se pacificam. No aspecto espiritual, só através da pausa é que nos abrimos para o entendimento, assimilação e avaliação dos processos da vida. A pausa se faz essencial para o sentir, para a oração, para a comunhão com nosso íntimo e com algo maior. Por sua qualidade de instrutora silenciosa, ela ajuda o homem a descobrir forças ocultas, a reunir nova inspiração, a estudar a si mesmo, a meditar e a compreender a verdade. Em suma, ela faz parte da existência, ajudando a melodia da vida a ter um ritmo mais equilibrado e mais ameno.
Da próxima vez que você sentir medo de ficar em silêncio, de se calar, lembre-se da música e da grandiosidade que vem após uma pausa.
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