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    Flávio Gikovate
    Médico, Psicoterapeuta, Conferencista
    Tel.: (11) 3887-0657 - Fax: (11) 3885-8646

    Site: www.flaviogikovate.com.br
    E-mail:instituto@flaviogikovate.com.br

    comportamento

    Reflexões sobre o feminino

    4. Outras peculiaridades do "feminino" Serão abordados, ainda, dois elementos próprios da biologia feminina e que interferem muito no modo como as mulheres se comportam.

    O primeiro deles tem a ver com o ciclo menstrual e com as variações hormonais que ocorrem, aproximadamente, a cada 28 dias. Antes, porém, gostaria de lembrar que pertenço a uma geração de médicos que foi formada dentro de uma visão ainda predominantemente masculina, até mesmo no que dizia respeito às questões femininas.

    Isto é, até há poucas décadas, eram poucas as profissionais da área médica que fossem mulheres. Elas eram franca minoria e suas opiniões valiam pouco até mesmo quando falavam da sua própria condição subjetiva.

    Por exemplo, algumas das pioneiras da psicanálise eram do sexo feminino e, enquanto pacientes de Freud, travaram feroz polêmica com o mestre que insistia em ensiná-las a se colocar num papel feminino que ele considerava que era próprio e indicador adequado do que ele entendia como maturidade emocional da mulher. O modelo de maturidade feminina era, pois, produzido no interior de um cérebro masculino.

    Minha geração se formou envolvida por concepções tipicamente "machistas", nas quais as cólicas menstruais eram tidas como "manha" – ao menos em boa parte – e a tensão pré-menstrual uma invenção das mulheres com o objetivo de encontrarem justificativa para seus maus gênios e irritações indevidas. As "coisas de mulher" eram tidas como "frescura", como sintomas histéricos.

    Elas eram tratadas, sob o aspecto da fisiologia hormonal, da mesma forma que os homens e tudo aquilo que nelas fosse diferente do que eles vivenciavam era desconsiderado e tratado como problema psicológico, imaturidade emocional, falta de firmeza e caráter. O que estava por trás dessas concepções era a dificuldade humana de entender o outro, e principalmente um outro que é essencialmente diferente de si mesmo.

    Como os homens não vivenciam alterações hormonais tão substanciais ao longo de cada mês de vida, não foram – e ainda hoje não o são, a não ser com muito esforço – capazes de entender e de dar genuíno peso ao que se passa no íntimo das mulheres. Até os que são portadores de enorme boa vontade e desejo de entender têm dificuldade em penetrar na alma feminina e tentar entender como é que elas sentem as variações do estado físico e como isso interfere sobre o emocional.

    Como fica sexualmente uma mulher no período da ovulação? Em que isso altera seu estado emocional, sua disposição afetiva? Como é que um homem poderá pensar sobre isso com algum rigor? É claro que existem obstáculos intransponíveis na comunicação que tentamos estabelecer com outros humanos, especialmente de sexos opostos.

    As mulheres tentam nos explicar o que sentem, mas nem sempre conseguimos acompanhar a sua descrição. Ao menos já somos capazes de acreditar que existem efetivas mudanças físicas capazes de determinar alterações emocionais derivadas das constantes alternâncias hormonais femininas. Já conseguimos imaginar que os problemas psíquicos usuais no climatério podem estar sendo complicados por fatores orgânicos sobre os quais tentamos interferir através da reposição de hormônios.

    Assim, as diferenças entre os sexos não residem apenas na presença da menstruação das mulheres. Ela é a manifestação mais visível de uma série de processos hormonais que não existem nos homens e que fazem a vida das mulheres – ou pelo menos de um grande número delas – mais difícil de ser dirigida de modo firme e consistente para um norte.

    Sim, porque a presença de tantas variações ao longo das semanas cria dúvidas e instabilidades psíquicas que podem determinar alterações na motivação e no modo como elas pensam sobre seus próprios projetos de vida. Penso que é muito mais difícil para uma mulher se determinar e perseguir com afinco um dado objetivo. Isso torna mais meritório o feito daquelas que conseguem ter sucesso nesse tipo de empreitada.

    O inverso também é verdadeiro: a falta de consistência e firmeza na perseguição de objetivos não deve ser motivo de tanta perplexidade, uma vez que a alma feminina é, nesse particular, muito prejudicada por sua natureza biológica. Tarefas que exigem estabilidade psíquica e um estado emocional constante e mais racional podem ser muito mais difíceis de serem realizadas por mulheres.

    Muito pouco a mais nós, homens, podemos dizer sobre o que acontece dentro das mulheres por força do ciclo hormonal no qual gravitam. Em decorrência de uma postura menos arrogante, é possível saber que existem diferenças substanciais entre os sexos e tentar entender o outro tomando por base o que podemos perceber nele e não a nós mesmos.

    Portanto, alterações do humor, modificações da disposição sexual, irritabilidade e descontrole agressivo podem ser facilitados, senão totalmente determinados, pelas alterações hormonais. Tais oscilações determinam efeitos variados em cada mulher, de modo que a inexistência de "sintomas" em umas tantas não é indício de falta de consistência na queixa de outras. Somos todos diferentes e as mulheres também o são entre si.

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