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    Flávio Gikovate
    Médico, Psicoterapeuta, Conferencista
    Tel.: (11) 3887-0657 - Fax: (11) 3885-8646

    Site: www.flaviogikovate.com.br
    E-mail:instituto@flaviogikovate.com.br

    comportamento

    Reflexões sobre o feminino

    Outra peculiaridade feminina à qual deveremos dedicar nossa atenção diz respeito à maternidade. Nesse caso, nós, homens, sentimos, mais uma vez, uma enorme dificuldade para entender exatamente o que se passa com o corpo e principalmente com a mente de uma criatura que sente crescer dentro de si outro ser.

    O que significa exatamente a percepção de que uma criatura se move dentro do próprio ventre?
    Jamais poderemos apreender tudo o que se passa com uma mulher que vive esse estado. Podemos observar, de fora, que as reações psicológicas são muito variadas e que vão desde um certo desconforto pelo fato de ela perceber que está se deformando e ganhando estrias, até o deslumbramento total pela experiência da maternidade, com total descaso por todos esses aspectos pessoais – e mesmo descaso em relação a eventuais reivindicações do marido.

    Muitas são as mulheres que, ao longo da gestação, perdem totalmente o interesse sexual – será isso determinado por razões hormonais? –, enquanto que outras mantêm aceso o desejo. Elas se tornam distantes dos seus parceiros, uma vez que se sentem mesmo é em simbiose com seus fetos. Outras não se apegam tão intensamente e nem se sentem tão completas pelo fato de terem uma criatura se desenvolvendo dentro de si.

    De todo o modo, a partir do parto, cujas dores também são variáveis e não deveriam ser subestimadas pelos homens, surgem muito intensamente as manifestações daquilo que, entre os mamíferos, chamamos de instinto materno, ou seja, um forte impulso na direção de proteger e cuidar do recém-nascido.

    Surgem o leite e o desejo de alimentar o bebê. Em umas tantas mulheres, não observamos tão claramente esses fenômenos, uma vez que parecem mais preocupadas consigo mesmas do que com seus filhos. Pode ser que em muitos casos esteja acontecendo um quadro depressivo – nada incomum nessa fase da vida e derivada de causas múltiplas e ainda não muito bem conhecidas –, mas em outros, a mulher não parece ser portadora de nenhum instinto de proteção da prole.

    A questão dos instintos em nossa espécie é sempre muito complexa, uma vez que a razão pode determinar nossas ações de uma forma muito mais definitiva do que os fenômenos inatos que nos fazem parecidos com nossos ancestrais mamíferos.

    Assim, mulheres muito egoístas têm menos gosto pela amamentação e por todo o tipo de atividade que envolva dedicação, abnegação e sacrifício. Tais criaturas, até mesmo quando estão na condição de mães, vendo que seus bebês são totalmente dependentes, são acomodadas e sempre encontram um jeito para que outras pessoas executem seus afazeres e cuidem de seus filhos.

    A maior parte delas, porém, tende a ser muito apegada aos seus filhos, condição que muitas vezes determina irritação e ciúmes nos seus companheiros. É importante que se compreenda que ser mãe é uma empreitada que se inicia em algum ponto de quarto mês de gestação, momento em que a criança dá sinais de existência autônoma ao se mover dentro do ventre.

    Ser pai é uma condição psicológica que, como regra, se inicia lá pelo quarto mês de vida da criança quando ela sorri para ele, ou seja, quando o reconhece. A idéia de envolver o pai já durante os meses da gravidez parece interessante, mas não acredito que possa deixar de, na prática, redundar em procedimentos um tanto superficiais.

    Não sabemos se existe algum tipo de comunicação efetiva entre a mente da mãe e a do feto e menos ainda sobre a possibilidade de o pai se comunicar com ele, de modo que conversar com o feto me soa um tanto patético.

    Não creio que exista nada de instintivo na paternidade, trata-se de um papel aprendido e uma afeição que se estabelece a partir do convívio e das trocas de carinho e de sinais de afeição que costumam crescer com o passar dos meses e dos anos. É muito importante refletirmos um pouco sobre a questão do instinto materno e da maternidade em geral.

    Costumamos pensar, já que a isso fomos induzidos pela tradição cultural na qual estamos mergulhados, que a pulsão que faz as mulheres desejarem tanto procriar seja a manifestação do dito instinto. Gostaria de colocar minha opinião contrária a essa idéia: acredito que o instinto materno só se manifesta quando do nascimento da criança e, portanto, não tem relação nenhuma com o desejo de ter um filho.

    No passado, o instinto responsável pela gestação era o sexual. Ele não pede a gravidez, mas sim intimidade entre um homem e uma mulher da qual sempre resultou, como um "efeito colateral", a gestação. O forte instinto sexual que possuímos esteve sempre a serviço do prazer e da reprodução. A separação entre sexo e reprodução só se deu muito recentemente, a partir do surgimento dos recursos anticoncepcionais, notadamente daqueles de uso e controle feminino – o surgimento da pílula foi, sem dúvida, um dos fatos marcantes do século XX.

    O desejo de ser mãe não é, a meu ver, expressão de natureza instintiva. Trata-se de um prazer pessoal, hoje totalmente desvinculado inclusive de qualquer tipo de necessidade social. Se, no passado, a reprodução era necessária para fins da perpetuação de uma espécie que padecia de muitas adversidades que poderiam facilmente levá-la à extinção, hoje a natureza agradeceria aos casais que decidissem não ter filhos, uma vez que o planeta está superpopulado e com graves problemas ecológicos.

    Se, no passado, a reprodução estava também muito vinculada aos interesses dos pais, já que os filhos trabalhariam para eles, sobretudo nas áreas rurais, e cuidariam deles nos anos da velhice, nos dias de hoje os jovens casais deveriam perguntar com muita determinação e coragem se querem ou não ter filhos, se estão dispostos a pagar o preço de criá-los para que depois partam convictos de que não devem nada àqueles que os geraram e que cuidaram deles com carinho por tantos anos.

    Se formos capazes de pensar para além da tradição, cabem perfeitamente as perguntas: vale a pena ter filhos nos dias de hoje? O que podemos esperar deles no futuro? Qual o sentido, para os humanos, de esforços sem recompensas? Seremos capazes de nos dedicar desinteressadamente a eles sem, de fato, esperar nada em troca?

    Saberemos deixá-los crescer e ir embora, na busca do seu próprio destino? Como nos comportaremos se eles "saírem" muito diferentes daquilo que sonhamos? Meu intuito, com essa salva de questões de difícil resposta, é mostrar como temos sido levianos em relação a aspectos fundamentais da vida.

    Inventamos a pílula anticoncepcional – entre outros recursos que nos permitem decidir se e quando teremos filhos –, invertemos, através de aspectos educacionais, os tradicionais elos entre pais e filhos – agora os filhos sentem-se credores vitalícios dos seus pais; portanto, desapareceram as conveniências que nossos ancestrais tinham com a reprodução e nem por isso pensamos seriamente se queremos ou não ter filhos.

    Apenas cumprimos o ritual de tê-los sem saber ao certo o que estamos fazendo. Os temos porque todo o mundo os tem e, portanto, deve ser bom tê-los. Isso não é modo de pensar. Não é à toa que tantas pessoas se arrependem de ter filhos mas, como dizia o poeta, só depois de tê-los tido.

    Temos que pensar mais profundamente sobre nosso destino se quisermos nos dar bem nessa vida e parar de catalogar as pessoas, mormente aquelas que se comportam de modo diferente do nosso. Quando uma mulher declara que não quer ter filhos porque prefere se dedicar aos seus afazeres profissionais, é rotulada de egoísta.

    Ora, o que leva a maior parte das mulheres e dos casais a ter filhos senão o egoísmo deles? Como o planeta não necessita da reprodução, as crianças nascem porque os pais querem se ver perpetuados neles, querem um "brinquedo" que os entretenha e que fortaleça o vínculo conjugal, isso quando interesses ainda menos nobres não estão envolvidos no processo reprodutor.

    As pessoas dizem que a vida é dura e difícil, que é rica em sofrimentos, que a consciência da própria morte é uma dor insuportável e ainda assim concebem um novo sofredor. Geram por deleite próprio e, nos dias de hoje, sem nenhum grande interesse posterior, uma vez que os filhos já entenderam que, ao não terem "pedido para nascer", em princípio não devem nada aos seus pais. É preciso aprender a respeitar as pessoas que pensam de modo diferente de nós.

    Decidir não ter filhos é uma opção digna e não está relacionada com o egoísmo. Não há nenhuma razão para que tantas mulheres se envergonhem de não os terem, como se fossem desprovidas de algum ingrediente instintivo muito nobre. O único motivo que leva uma mulher ou um casal a ter filhos é o que deriva do desejo que sentem de terem crianças por perto para que com elas possam brincar e desfrutar dos prazeres e agruras de acompanhar o seu crescimento.

    Não se trata de uma função nobre e sim de um prazer pessoal que só deveria ser exercido por pessoas que, de fato, gostam muito de conviver com crianças. Os que decidirem dar outro rumo a suas vidas não têm nada do que se envergonhar e nem podem ser vistos como menos dignos ou privados da nobreza de alma que leva as pessoas à reprodução.

    O mundo do futuro é o da multiplicidade de opções de modos de vida, sendo desnecessário e inconveniente hierarquizarmos as diversas fórmulas, ou seja, não existem formas melhores ou piores de viver, mas sim diferentes.

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