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É no mínimo curioso como as pessoas, de modo geral, se preocupam com as rugas, as manchas, as gordurinhas, as pregas do rosto e do corpo. No entanto, esquecem de olhar as próprias mãos e reconhecer justamente nelas o melhor e mais fiel retrato de nossa idade, de nossas experiências, do tipo de vida que tivemos, dos trabalhos feitos ou esquecidos, da qualidade de nossos serviços, do alcance dos mesmos. Basta um olhar atento para decifrar nossas mãos.
Funcionando como co-piloto da mente, as mãos:
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- Escrevem, educam, desenham, cortam, tecem, produzem, pintam, moldam, serram, cozinham, energizam, plantam, constroem, concretizam idéias; - Derrubam, destroem, aprisionam, esmagam, pregam, batem, enganam, roubam, matam sufocam alegrias e esperanças;
- Ajudam, apóiam, amparam, sustentam, auxiliam, acariciam, curam, protegem, trabalham, aplaudem, encorajam, estimulam, alimentam corpo e alma...
Na nossa vida temos conjugado vários destes verbos.
E no futuro? Que verbos escolheremos?
Quando me veio à mente este tema, lembrei-me logo de uma poetisa, que tive o privilégio de conhecer no início dos anos 80. Cora Coralina ou Ana Lins do Guimarães Peixoto Bretãs, a Ana que se fez Cora, natural da cidade histórica de Goiás Velho ou Cidade dos Reynos de Goyas, gostava de escrever poesias e contar estórias de seu passado, de sua cidade, de suas arquiteturas, de seus costumes e suas gentes. A poetisa de Goiás, com entusiasmada suavidade, conversava sorrindo, ‘ poetisava' ‘ e dava lições de vida, mostrando seu maior troféu: as mãos enrugadas e vividas. Cora se orgulhava delas, pois retratavam o suor, a labuta, a vida dura.
Sensível, a Aninha da Ponte da Lapa, doceira de profissão, utilizou a matéria-prima feita de dificuldades, ausências e humilhações que a vida lhe fornecia e moldou, com suas mãos, belos e singelos versos. Com suas mãos, Aninha “e scalou a montanha da vida removendo pedras e plantando flores e, na tarde da vida, recriou e poetisou sua própria vida”.
Através de seus versos e de suas mãos, conhece-se a verdadeira Aninha, que nada tinha de pequena. Pelo contrário, mostrou ser feita de pura grandeza, em espírito e palavra.
E tudo começou com aquelas mãos... |